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Sobre nenhuma explicação para o sofrimento em Lucas 2

Publicado em 2 minutos de leitura

Foste tu que formaste todo o meu ser; formaste-me no ventre de minha mãe. Louvo-te, ó Altíssimo, e fico maravilhado com os prodígios maravilhosos que são as tuas obras. Conheces intimamente o meu ser. Quando os meus ossos estavam a ser formados, sem que ninguém o pudesse ver; quando eu me desenvolvia em segredo, nada disso te escapava. — Salmo 139:13-13 (BPT)

Desde a minha adolescência, quando num acampamento me foi pedido e a outros vinte adolescentes que apreciássemos o assombro — o encanto, o milagre — deste salmo, que nunca me senti confortável com ele. O texto insinua algo de que não falámos entre Coca-Colas no bar e arroz com bife ao almoço: que Deus vê sofrimento injustificado, às vezes ‘quando nos desenvolvemos em segredo’, e não age.

Mas uma manhã, depois de o ler de novo e me remexer por dentro como de costume, passei para Lucas 2 e encontrei um pormenor novo: quando Maria e José, arrancados do torpor de estátua no presépio, andam até ao templo para apresentar o seu recém-nascido, encontram aí um profeta que os abençoa e diz a Maria: “Uma grande dor, como golpe de espada, trespassará a tua alma”.

Aqui está alguém sobre cujo sofrimento raramente penso quando se fala na narrativa cristã: a mulher que viria a ser trespassada pelo flagelo dirigido à mesma salvação que envolvera num cobertor, e que agora tinha ao colo. Até esta morte que produziu salvação teve ecos de um mundo desajustado, como a dor de sobreviver a um filho.

Também reparei que Maria não seria trespassada sozinha, mas juntamente com o Deus que “se atirou inteiro para o tempo e o espaço, para a luz e escuridão da vida, connosco”1.

O que acho interessante é que a narrativa cristã não oferece nenhuma explicação para levar para casa sobre a razão do sofrimento. Tudo o que oferece é um Deus que viveu as mesmas alegrias e misérias: que recebeu convites para jantar; passou noites em claro; trabalhou de sol a sol; comeu figos e peixe na brasa; andou a pé para todo o lado; e nos oferece companhia quando atravessamos luz e escuridão.


  1. Traduzido de Krista Tippet (no livro Speaking of Faith). [return]