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Moisés, Maria Popova e Judith Shulevitz sobre o descanso

Publicado em 4 minutos de leitura

Nesse dia, não faças trabalho nenhum, nem tu nem os teus filhos e filhas, nem os teus servos e servas, nem os teus animais nem o estrangeiro que viver na tua terra. — Êxodo 20:10

Este verão, passei alguns dias sozinha numa vila a duas horas de casa, não tanto para explorar como para descansar: pisei descalça almofadinhas de relva, fiz festinhas a um cão pequenino, acordei com vista para as montanhas.

Ocorreram-me três autores enquanto estava sentada à varanda com uma taça de tâmaras, o mantimento mais fácil de preparar dos que tinha levado (aqui está a receita: despejar para taça; servir): a escritora Maria Popova, a jornalista Judith Shulevitz, e o profeta Moisés ao descer de um encontro com Deus, resplandecido e com duas tabuínhas de pedra na mão — o primeiro livro de bolso.

Os três cruzam-se casualmente: os Dez Mandamentos fazem parte da tradição judaica; Shulevitz foi criada na tradição judaica; tanto ela como a Maria Popova vivem em Nova Iorque. Moisés era religioso e a Maria Popova não é (religião é uma rede de «contradições e impossibilidades»); mas, no sentido em que religião é a narrativa que contamos a nós próprios sobre quem somos e o que importa, os três cruzam-se na ânsia de a descobrir e contar. Nesta tarde em particular, em frente a uma montanha capaz de bloquear o sol a metade da paisagem, os três cruzaram-se sobre o assunto do descanso: a procura de refúgio que normalmente programamos para as três semanas de férias ou roubamos ao fim de semana (quando, como é evidente, tínhamos coisas para fazer). Os três oferecem uma perspetiva radical sobre o descanso, não porque não a tenhamos ouvido muitas vezes, mas porque raramente a aplicamos.

Duas coisas chamaram-me a atenção, a primeira delas a sabedoria milenar que instituiu uma prática que na cultura ocidental temos tanta dificuldade em recuperar. Ao pensar no mandamento do descanso (citado em cima), Shulevitz observa uma «instituição que manteve a obsessão pelo trabalho razoavelmente sob controlo durante milhares de anos», e que revela intuição sobre a espécie humana e a própria terra que hoje tendemos a ignorar. Não podemos pensar que na altura era mais fácil: não havia uma ordem para comer; porque precisariam de uma ordem para descansar?

A segunda coisa são as fronteiras com que os três autores definem o descanso. Como alguém que teve apenas um punhado de dias de férias (os dias com as tâmaras e as montanhas), reparei que nenhum sugere as três semanas no fim do mundo, ainda que merecidas, como fonte de energia para o ano inteiro. Em vez disso, a sua medida é granular. O que Shulevitz observa é o sábado, «o único de sete dias dedicado ao descanso por mandamento divino». Maria Popova oferece passeios e meditações como exemplos de «momentos de sossego»:

Build pockets of stillness into your life. Meditate. Go for walks. Ride your bike going nowhere in particular. There is a creative purpose to daydreaming, even to boredom.

Isto levanta uma questão importante sobre a forma como tratamos o nosso tempo, inadvertidamente ilustrada por uma TED Talk de Jeff Speck sobre como tornar uma cidade andável. Speck observou que alargar uma estrada congestionada é alimentar uma criatura insaciável: quando a alargamos para satisfazer a procura, «essas estradas enchem-se de trânsito. Por isso alargamo-las de novo, e elas enchem-se de novo». Com um viés semelhante, a nossa identidade assente no trabalho e numa definição distorcida de produtividade dita que atulhemos o nosso tempo com tarefas.

Shulevitz comenta esta tendência no artigo Bring Back the Sabbath:

The lonely Sunday has been replaced by the overscheduled Sunday — soccer Sunday, Little League Sunday, yoga-class Sunday, catch-up-around-the-house Sunday. Americans still go to church, of course, but only in between chores, sporting events and shopping expeditions. (You can now find A.T.M. machines inside megachurches; congregants don’t have to waste a minute between services and the mall.)

… I won’t weary you with cautionary tales about what our work-addicted culture can do to you, psychologically and physiologically, because, for one thing, it’s completely within your power to hold it at bay, and for another, you don’t want to anyway. Ours is a society that pegs status to overachievement; we can’t help admiring workaholics.

A sugestão dos três autores é análoga à de Speck quando sugere que nunca construamos estradas com mais de duas faixas (recusando a congestão e tornando a cidade mais segura, interessante, e fácil de percorrer a pé). A ação de descansar, definida como momentos de sossego no nosso dia, requer a mesma disciplina que dedicamos à tarefa: que digamos que não; que andemos de bicicleta sem destino; que nos refugiemos à sombra de montanhas por um dia.