Avançar para Conteúdo

Precisamos de conversar sobre comida

Publicado em 3 minutos de leitura

A Marilynne Robinson tinha em mente o cuidado uns com os outros quando disse «Nós somos, como sempre fomos, criaturas perigosas, os inimigos da nossa própria felicidade. Mas o único remédio que alguma vez encontrámos para isso, o único alívio, está em reverência mútua». Esta noção — reverência mútua — é uma raridade fundamental ao conversarmos sobre assuntos que nos dividem.

Vamos pegar numa coisa mundana, como a comida que pomos na mesa.

Para a minha amiga Joana, a secção do talho no supermercado é a secção dos cadáveres. Espanta-a que o mundo não se tenha dado conta de que uma conversa à mesa sobre lombo, perna e peito, de Porta Ravessa na mão, tem laivos de Hannibal Lecter. A visão da Joana é a de um mundo onde animais não são comida; logo, ela quer que paremos com isso; e que os nossos descendentes venham a reagir à ideia de comer carne como nós reagimos à história de torturas no circo romano.

Naturalmente, isto cria tensão no almoço de domingo. Não gostamos de imposição, seja em religião, em política ou à mesa. E como se uma conversa não fosse difícil o suficiente, andamos de sobreaviso numa cultura de ofensa e verdade relativa, onde é mais difícil defender ou questionar ideias sem se ser vocal e violento.

Se essa conversa acontecesse, eu teria perguntas. Matar um animal é imoral? Imoral independentemente do propósito? Imoral seja no matadouro ou no quintal da minha bisavó? Uma vida longa é o melhor que posso pedir, para mim e para a galinha que vi correr nesse quintal?

A minha primeira reação é pensar nos guaxinins, chascos-pretos e esquilos-cinzentos guardados em fila em armários de metal nos bastidores de museus de história natural, universidades e colecionadores privados. Muitos deles são trocas institucionais ou donativos privados (a Emily Graslie, do The Brain Scoop, dissecou um lobo que foi entregue ao museu onde ela trabalhava depois de ter sido atropelado). Mas a maioria está ali porque um grupo de cientistas, depois de atravessar meandros burocráticos cada vez mais densos, saiu a certa altura para o mundo e regressou com espécimes. Estas coleções, que começaram por ser um catálogo sistemático da vida na Terra, estão hoje diretamente ligadas aos esforços de conservação da fauna no planeta, «a única forma de protegermos a biodiversidade num mundo em mudança».

Mais perguntas: devemos chamar genocídio à atividade do exterminador, ou assassinos aos residentes do mundo não-ocidental, cuja roda de alimentos inclui insetos? Demonstramos a mesma consideração pela galinha e pela minhoca que ela bica e engole? «Tem uma formiga no seu sapato. É uma formiga das boas. Na primavera passada, ela virou o jogo na ‘Grande guerra na rachadura da calçada da rua Pinheiro’. Um dos avós dela viajou quase 800 metros com Lewis e Clark. Você sabe que hoje ela morre? Que você é a morte dela?»1

E nem começámos a falar de plantas. Porquê parar nas galinhas quando as ervilhas aprendem a associar a posição de uma ventoinha à direção da luz, como o cão de Pavlov? A agricultura industrial é responsável por cerca de um quarto dos gases de estufa; o bem do planeta é motivo para diminuir o consumo de carne. Mas o que estamos a aprender sobre plantas faz-me querer preservar espinafres. Os limites que traçámos são egocêntricos. As fronteiras são mais difíceis de definir. Onde traçamos a linha? Como entramos nesta conversa uns com os outros?

Voltamos à reverência mútua, o nosso melhor ponto de convergência. A nossa esperança está na capacidade de reconhecer que não somos o inimigo. A nossa responsabilidade uns pelos outros, pelas criaturas e mundo à nossa volta, é conjunta. Precisamos de nos sentar para conversar, até sobre comida.


  1. N. D. Wilson, ‘Notas da Xícara Maluca’. [return]