Avançar para Conteúdo

Oxirrinco: lixo milenar e a natureza humana

Publicado em 3 minutos de leitura

O nosso lixo revela os nossos hábitos e a nossa natureza. Por exemplo:

  • Desperdício: cascas de cebola e guardanapos de papel do Continente.
  • Plástico: embalagem de framboesas do Continente.
  • Papel: embalagens de pizza do Continente.

O que revela este lixo? Adoramos o Continente, comemos fruta e legumes, e reciclamos; mas também usamos descartáveis e comemos comida de plástico — duas admissões que custam porque as alternativas (guardanapos de pano e cozinhar do zero) seriam mais saudáveis e ecológicas.

Às vezes, não nos damos ao trabalho.

Há cem anos, dez séculos de lixo foram descobertos em Oxirrinco, no Egito: dois arqueólogos e as equipas que se lhes seguiram resgataram literatura clássica, evangelhos não-canónicos, «éditos, petições, contratos e cartas», escritos entre 250 BC e 700 AD, sobretudo em grego, e que ainda estão a ser analisados.

Por exemplo:

  • Em 267, um rapaz chamado Demétrio aceitou um suborno para perder um combate de luta livre.
  • Uma sátira pornográfica foi resgatada em fragmentos suficientes para ser considerada (usando palavras do próprio texto) um sucesso «grande e espesso como uma viga» do seu tempo.

Também este lixo revela os nossos hábitos e a nossa natureza; mas a variável extra — o tempo transcorrido entre as minhas embalagens de pizza e as resmas de pornografia — revela que essa natureza é constante. As imperfeições estendem-se até hoje, até esta tarde; as considerações de ganância, receio e luxúria são as mesmas. Tantas vezes dizemos que os nossos antepassados não sabiam melhor — e por isso adoravam o sol e sacrificavam a vulcões — antes de a ciência vir e iluminar. Mas a nossa condescendência desfaz-se sob o peso de contratos de dois mil anos. Não somos assim tão diferentes do Demétrio ou da multidão em fila para o circo romano. Também eles ponderavam e mediam. Olhavam para o jantar e diziam «Outra vez peixe na brasa?». Sentiam o coração cheio ao contemplar amigos e irmãos. Pegavam em armas e perguntavam-se se deviam. Acordavam a meio da noite. Aceitavam subornos. Cada geração redescobre a pólvora cultural, considerando o futuro irrelevante porque somos a vanguarda, e o passado, descartável porque eram outros tempos. Mas há muito a aprender — muito por onde cultivar humildade e compaixão — com gerações anteriores. Até com o que lhes encontramos no lixo.1


  1. De onde veio isto? A história do Demétrio vem de um artigo da Live Science, via bem-amada Wikipedia. A informação sobre Oxirrinco vem de uma entrada no Encyclopedic Dictionary of Archaeology. A génese deste ensaio e a sátira pornográfica vêm do episódio Detective Stories, do podcast terrivelmente amado que é o Radiolab. [return]